RETRATO DE UMA VIDA DA GUINÉ-BISSAU
Impressionante como relata a vida de milhares, centenas de
milhares de guineenses a viver no “tchom sabi”, mas a realidade é o abismo, a
antecâmara antes da morte.
Não posso deixar de reagir, partilhar e comentar este texto
Eu, no passado recente já fiz e vou continuar a fazer e a
dar meu contributo real e no terreno e que qualquer coisa possa mudar… para que
gentes como Tia Npot (assim se chamava a senhora) possam ter no futuro uma vida
mais sã, melhor, Condigna. Se possível meu contributo será potencializado nas
autárquicas quando os políticos assim o entenderem marcar as eleições.
Leiam sem pressa e revejam-se na panorâmica da vida quotidiana
guineense.
Transcrevo texto que vi, li, reli e tornei a reler...
“Bravura
da bideira -Tia Npot
À luz da sua vela, a
tia Npot vai iluminando a sua vida e a das famílias à sua volta. Vende carvão
durante o dia. À noite faz cuscuz e vende mancara à beira da estrada, no
chamado beco. É a mãe que não tem filhos e que já não os pode ter. A idade
pesa-lhe nas coxas. Tia Npot é surda, mas todos os dias ouve a necessidade e a
luta pela sobrevivência a bater-lhe à porta.
Atrás da sua porta,
que não é porta, vive no limiar da pobreza extrema. Mas do Estado não espera
qualquer apoio que possa melhorar, nem que fosse um pouco, a sua vida.
Tal como a maioria das
mulheres guineenses batalhadoras, a tia Npot sentiu na pele a ausência do
Estado. Nunca recebeu apoio social. Nunca sentiu uma preocupação, um querer
saber, um carinho por parte da sua pátria.
Dorme nos recantos
mais escuros numa casa coberta de palha, sem luz, sem água canalizada e em
precárias condições físicas no bairro de Cuntum-Madina, em Bissau.
A sua sala não tem
televisão moderna. Mas tem utilidade. Serve para armazenar o sustento. Os sacos
de carvão. E serve de dormitório para patos e galinhas, seus companheiros.
No quarto, tia Npot
tem panelas, bindi di cuscus e um colchão feito de palha. Uma relva sem alma
colocada num cantinho no chão. Um quarto escuro, sem janela nem porta, que
cheira a humidade.
É uma espécie de terra
batida - só areia por dentro. Mesmo assim, quando entra, tia Npot deixa os
chinelos à entrada da porta principal.
A cobertura da casa, por
ser velha, deixa entrar a chuva. Tigelas e baldes servem de remendo ao que não
tem conserto. Já perdeu a conta às noites que passou em branco por chover
intensamente e sem parar. Não sabe onde colocar o colchão. Está tudo molhado,
parece que em casa é pior que na rua.
Npot acorda às cinco
da manhã para preparar o seu longo dia. Vai dormir à uma de madrugada. É a
rotina normal de uma mulher que não conhece descanso aos domingos.
A fome não descansa e
nunca dorme. Enquanto há quem espere pelo final do mês para receber o salário -
algo que nunca experimentou -, Npot odeia o fim do mês. A sua renda de casa
custa 8 mil francos. Nunca se interessou por pedir recibo de pagamento, já que
nem ler sabe. Conhece apenas os números para contar os rendimentos e calcular a
soma para pagar ao senhorio a renda mensal.
Muitas vezes, eu no
meu carro e ela caminhando, cruzamos os nossos caminhos à entrada da mesma rua.
Vejo-a sempre a
carregar à cabeça.
Leva mais de cinco
quilos, deduzo.
Fogareiro, bindi e
tudo o que lhe permita ganhar algum dinheiro por dia - às vezes quinhentos
francos.
Dinheiro que guarda
cuidadosamente na ponta de panos, num nó que faz propositadamente.
Mesmo com a testa
sofrida, a roupa a pingar de calor e os chinelos que se remendam a toda hora,
tira sempre um tempinho para saudar e cumprimentar as pessoas.
Nunca aceitou a minha
boleia, quando lhe digo: "Tia no bai pan n´lebau, sol noti".
Reage sempre da mesma
forma. "Nha fidju ntchiga dja, bai diritu".
E lá vai ela, num
andar rápido. Talvez porque começa o dia sempre em desvantagem, correndo contra
o relógio e contra o prejuízo que já é certo.
Amanhã nunca se sabe.
Uma pasta dentífrica é um luxo? Ou sobra carvão para esfregar os dentes ao
nascer do sol? E o país? Como estará amanhã? Negro de novo? Ou há esperança
numa nação de todos e para todos?
Por várias vezes, do
seu pequeno lucro tira uns 200 francos para oferecer aos jovens que andam de
peditório em peditório para a sua equipa de futebol ou para comprar warga nas
bancadas de Djumbai.
Da política, a tia
Npot só conhece o PAIGC de Nino Vieira e o PRS de Kumba Yala, antigos presentes
dos respetivos partidos e ex-chefes de Estado guineenses.
Ao contrário dos
políticos, serve-se de si mesma para ter uma vida digna e honesta.
Votou uma única vez na
vida, nas eleições de 1994, as primeiras eleições livres na história da
democracia do país.
Ainda tem o seu cartão
de eleitor novinho, pensando que fosse um único documento que o Estado se
dignou legar a alguém.
Ela é umas das
milhares de guineenses invisíveis aos olhos do Estado. É uma indefinição.
Devido à patrulha que
as forças de segurança fazem nos bairros à noite para tentar travar os assaltos
à mão armada, Npot foi à minha casa ao final de mais um dia de trabalho.
"Filho, assisti a
uma correria e gritaria na feira esta noite. Por que é que os militares estão a
pedir documentos?", perguntou, com um balde na cabeça cheio de balas, da
sua armada de luta contra a fome.
Mas ela tem. É o
cartão de eleitor de 1994. Ainda tem validade? Ou melhor, será que um dia
valerá alguma coisa?
Npot não sabe se
chegou a ter bilhete de identidade. Não se lembra. Ou seja, Npot vive à margem
do Estado e é invisível para o Governo.
Um dia disse-me:
"Filho, ajuda-nos por favor... já estamos cansados dessa situação. Dizem
que tu trabalhas na rádio. Então, diga-lhes (aos governantes) que estamos a
sofrer e não temos nada nem para comer. Que façam algo por nós (povo)".
Nem sequer ouviu a minha resposta: foi-se de imediato.
Quando está doente,
diz-se que faz cura tradicional apostando nos remédios de terra com folhas de
árvores, raízes, pedaços de troncos de madeiras, entre outros, que muitos
acreditam serem eficazes para combater doenças sem tomar comprimidos. No caso
da tia Npot, ela não vai ao hospital do Estado porque não tem dinheiro. Se nem
cem francos tem para pagar toca-toca, onde terá dinheiro para pagar a entrada
no hospital, comprar luvas, seringas, soro, medicamentos e mais e mais e mais?
Por isso, prefere ficar em casa e tentar a sorte com o que tem.
Não conhece Eneida
Marta, Karyna Gomes ou Ammy Indjai, mas sabe de cor as músicas de Dulce Neves
no histórico grupo musical Super Mama Djombo. Não tem tempo para ouvir
noticiários. Não conhece nenhum ministro. Aliás, ainda não sabia que há carros
com ar condicionado. Foi uma admiração grande e surpreendente ver e sentir um
carro a "refrescar-se".
Ela não é de muita
conversa, até porque não funcionam bem os ouvidos de uma mulher que se conforma
com o que tem e luta dia e noite para andar de cabeça erguida na nossa
sociedade. No dia de Natal sempre vende mais na rua, sobretudo na noite da
ceia: está-se sempre a recarregar munições para a dura batalha do dia 25 de
Dezembro. Um bom dia para elevar o lucro do dia-a-dia.
Na sexta-feira
passada, por volta das 00:30, a tia Npot deu-me os primeiros sinais de
desespero com a sua vida de sacrifício em sacrifício. Sem sossego.
Nesse dia, cruzámo-nos
mais tarde do que habitual, eu a pé e ela de rastos, muito embriagada. Era
evidente que o efeito do álcool tomou de assalto a força que a movia todos os
dias. Soltei lágrimas sem ela se dar conta. Passados dois dias, comunicaram-se
a sua morte. Foi encontrada sem vida na sua casa, deitada ao pé do seu saco de
carvão. Entrei em choque. Ninguém conhece a sua família. A tia Npot, que aparentava
65 anos, sempre viveu sozinha. Nunca ficou a dever a renda de casa onde morava,
nem à Câmara Municipal de Bissau pelo espaço que ocupava no mercado. O corpo
foi levado para a sua aldeia natal no interior do país, graças ao dinheiro das
suas poupanças encontrado na sua mala de madeira.
Que tenha um cantinho
para descansar em paz nos céus.
Mais de metade das
mulheres guineenses vive em situação de pobreza extrema, ainda que lutem
diariamente para garantir o sustento da família em casa.
A questão que se
coloca é: será que vamos aceitar uma economia em que apenas alguns se dão
espectacularmente bem? A ideia partilhada pelo meu pai (um verdadeiro
combatente da liberdade da pátria) é que este país será melhor quando todos
tiverem as mesmas oportunidades, todos tiverem a sua fatia justa, todos
seguirem as mesmas regras. Razão pela qual deu toda a sua juventude para a
libertação dos povos nas mãos do jugo colonial para que este país fosse um
santo lugar para os seus filhos desfrutarem das riquezas desta fatia de terra.
Nasci, cresci e assisti o meu pai a morrer por não aguentava mais os reflexos
das torturas a que foram submetidos nas prisões de Tarafal e Djiu di Galinha.
Aceitou se sacrificar, tal como muitos combatentes, para que possamos levar em
avante a difícil tarefa de construir uma nação próspera que sirva todos os seus
filhos. Não só burgueses, elites, ou apenas uma geração.
Nós, o povo,
entendemos que o nosso país não pode ter êxito quando uns poucos estão muito
bem e um número cada vez maior não está. Acreditamos que a prosperidade da
Guiné-Bissau deve repousar sobre os ombros largos de uma crescente classe mais
desfavorecida e vulnerável.
À tia Npot nunca foi
dada a oportunidade de provar o sabor da propriedade do seu país ou mesmo de
aprender a ler e a escrever o seu nome para poder conhecer os seus direitos e
deveres, exigindo que o Estado cumpra a sua tarefa de levar avante a nobre
jornada iniciada nas matas de Boé em 1973. Tinha o dom precioso de saber lidar
com os números para fazer contas ao seu dinheiro, que ganhava a conta-gotas, e
saber geri-lo. Saliente-se que até ao final desta década, dois em cada três
postos de trabalho irão exigir alguma formação superior - dois em cada três. E,
no entanto, ainda vivemos num país onde muitos guineenses brilhantes e
batalhadores não podem conseguir a formação que merecem. Não é justo para eles
e certamente também não é inteligente para o nosso futuro.
Sim, vale a pena
contar a história de tia Npot.
Ficção? Metáfora? Ou
realidade?
Ela ilustra o exemplo
da bravura da mulher guineense. Dos sacrifícios que faz para sustentar a
família.
Ela contrasta com a
história de outras mulheres que não sabem o que é dormir com chuva em casa. E
quando estamos a celebrar os 42 anos da independência…
A história desta mulher
valente podia ser a sua, a da sua mãe ou de algum parente. Então, faça algo
sério e digno para o desenvolvimento da Guiné-Bissau, salvando vidas e tirando
da pobreza milhares e milhares de irmãos guineenses. Pense mil vezes antes de
colocar os seus interesses pessoais ou partidárias acima dos da nação! A Guiné
sempre em primeiro lugar, não se esqueça.
Não fique parado a ver
pessoas a passar fome, a morrer de doenças fáceis de curar. Faça algo para que
o seu irmão tenha uma boa educação, saúde, emprego, vida condigna, um bom
professor. E faça algo pela sua terra natal. Pode até ter tripla nacionalidade,
mas nunca deixará de ser um nativo da Guiné-Bissau. Faça algo e faça agora!
Que Deus abençoe a
Guiné e que Allah abençoe os guineenses! “
O meu obrigado a quem escreveu este texto, que me faz estar todos os dias na Guiné-Bissau, presente no espirito, na alma, no pensamento (mas estando fisicamente muito
longe, distante).